um diário de nosso trabalho.
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Segunda-feira, Janeiro 24, 2005
postado por: espanca! 10:35 PM
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1 - Sobre os personagens:
Algumas coisas novas e boas sobre os personagens nasceram nessa semana.
Gustavo tem agora uma boa informação, um bom caminho que descobriu : a movimentação de seu personagem com vários vetores, vetores menos cartesianos. Ele também ganhou um ar de displicência que acredito poder apontar caminhos: braços menos corretos, uma postura pouco charmosa, um corpo com pouca culpa, talvez. O próximo passo, acredito, é fazer com que isso seja uma opção que revele seu personagem, uma via e não um fim.
Marcelo latiu com mais controle vocal.
É verdade que ¿técnica vocal¿ é o que menos temos conhecimento no grupo. Resultado de uma geração de atores que estudou e estuda pouco a expressão vocal. Resultado também de pouco acesso à técnicas de aprimoramento vocal destinadas à atores. Técnicas que tratem a questão vocal do ponto de vista teatral. Assim, muito do que experimentamos é muito misterioso. Mas, quanto ao ¿latir¿ do Marcelo:
Fizemos um exercício de economia de ar na fala + a regra de não poder falar alto. Consistiu em simplesmente utilizar somente o ar estritamente necessário para falar o texto, sem que a fala fosse deformada. É na verdade, um ¿controle de ar¿ nas emissões vocais. Do que experimentei, na prática, percebi que isso me conecta mais com meu corpo, sensibilizando-o. Induz a uma maior articulação das palavras, já que não é possível empurra-las com o volume. ¿ Empurrar¿ gasta muito ar.
2 -
Algumas questões para os atores (talvez não seja necessário responde-las, hein.. ):
- Para quem os cães latem?
- De onde vem a alegria dos lixeiros?
- A fé, está em qual direção? Aponta pra qual lado?
- É na coxia que os atores se escondem?
- Qual o valor de uma galinha? Um Deus vale mais que uma galinha?
- Cão humanizado ou Homem animalizado?
GRACE
postado por: espanca! 10:31 PM
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Fim da primeira semana de ensaio. Esta semana foi importante...como tudo. "Tudo presta pra ator!" engraçado...acho que o certo é " pra ator tudo presta!"
O clima ainda é um pouco tenso, é como se todos sentissem a gravidade do que estamos fazendo. Na verdade a palavra não é "TENSO"; definitivamente não! Acontece que sentimos juntos a necessidade do amadurecimento. NECESSIDADE. É por isso que estou fazendo teatro.
Hoje conversamos sobre o que se passou esta semana,no final das contas percebi que estamos nos cercando da essência. do conteúdo... sei lá como chamar. Sei que fica muito claro( e não fui eu quem disse isso;foi Rita) que já existe alguma coisa maior (não falo de estilo ou modo de interpretar) em POR ELISE. é algo que intuímos e não podemos perder.Parece vago,mas não é. Explico: Hoje Rita nos disse que quando criava, ela não partia dos personagens. Era na obra em si, onde buscava um sentido que a orientasse. Acho que fizemos isto essa semana.Nós nos resguardamos de recomeçar a partir dos nossos acertos antigos. Grace optou por descosntruir para que não corrêssemos o risco de repetir cegamente o material do "elisinha".
Começamos a trabalhar o latido de cada um, e pra mim foi especialmente bonito. Eu gosto da idéia de ter companheiros cachorros!
Tenho tido algum avanço em relação a técnica do latido( pra tudo existe uma técnica!) mas não sei bem pra onde pode crescer
O CACHORRO. Talvez isso seja bom. De qualquer forma, ainda não trabalhamos as minhas relações com os outros personagens; apenas algumas improvisações com minha dona querida:
A MULHER. ( ainda não conseguimos melhorar nossa cena.)
Espero ser cada vez mais cachorro: "cão é o que não é oco."
Só coisa muita daqui pra frente!
postado por: espanca! 10:27 PM
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Pra quê servem as regras?*
Entrar em um jogo sem saber as regras não é lá uma das coisas mais normais. Entrar de cabeça, menos ainda. É como entrar em campo e não saber pra que lado correr. Com tudo que se tem direito: torcida organizada, adversários e um tempo determinado pra fazer o melhor adquirido com o treino. Mas é justamente isso que estamos nos propondo agora. Sem um mapa ou manual de instruções. A intuição tem sido a guia nesta trajetória curta mas fortemente traçada. A imagem destas tais linhas iniciais eqüivale às mesmas linhas de quando se aprende a escrever a lápis: as letras quase ultrapassam as páginas. Você pode pensar que pode sair pouco ou quase nada dessa forma, mas nos seis meses de trabalho juntos, o grupo de cinco atores (e uma produtora integrante e novos parceiros!) já foi batizado e a estréia do novo trabalho é aguardada com expectativas por alguns. Espanca! Esse é o nome (a escolha merece outras páginas, mas outra hora). A rotina revela aos poucos as diversas experiências de cada um (mesmo que jovens, somam mais de 30 anos no exercício teatral!) e o que pode vir a ser a soma de tudo isso.
Nessa experiência desregrada, aos poucos se estabelece um diálogo comum, ou melhor, um dialeto que possa aprofundar as discussões e descobrir o que se pensa, o que pensa o Espanca! e o possíveis apontamentos. O desejo e a meta é fazer, criar, mostrar, criar de novo, no ritmo das inquietações e questões sentidas na nossa realidade e na troca com outras. Aliás, estas têm ampliado rapidamente os horizontes do grupo, das questões artísticas às pessoais. Estamos crescendo. E o melhor: juntos.
Com isso, sentimos a mudança dentro e fora do trabalho. Não é possível consolidar um trabalho sem estar em trabalho fora dele. Explico melhor: o que se vê na cena (no individual e no coletivo) é reflexo do que se faz nas coxias. Prova incontestável disso foi o primeiro fruto desse ¿Encontro¿ - palavra mais do que compreendida em todas as suas dimensões pelos seus integrantes. O tempo apertado se torna parceiro na necessidade de expor sem pudores o que é mais urgente porque tudo é urgente. Não se pode dar o luxo de pedir um tempo pra reflexão maior do que se tem. Cerca de 60 ensaios é medida para atingir a primeira etapa: um novo Encontro com o público, conosco e com as razões de sermos artistas. Depois disso, como é natural, novas modificações, ajustes, ampliações e reduções para novos encontros.
O começo já começou antes. Isso mesmo: começamos um processo sem saber que ele teria seu prazo ampliado por tempo indeterminado. Mais uma vez, o desejo. É nossa última chance pra provarmos que somos capazes e queremos muito fazer arte em grupo. Pode parecer um exagero, mas é uma opinião u-nâ-ni-me! Os personagens Dona de casa (Elise), Mulher, Homem/cão, lixeiro e funcionário começaram a ser esboçados em julho de 2004, a partir de discussões na qual se ouvia muito atentamente o ponto de vista do outro, que refletia sua história e pensamento de vida artística. Sem contar o tempo investido por Grace Passô nas primeiras idéias e linhas que originaram o roteiro. Além disso, uma rotina cronometrado de ensaios que ocupava os horários vagos das agendas planejadas com outras histórias. Algumas, cederam espaço e hoje seguimos mais conscientes de tudo que nos ¿pegou de surpresa¿. Mesmo sem ainda termos as tais regras estabelecidas, ou melhor códigos, melhor ainda, o conjunto de estruturas que determinam um conceito.
Final de 2004, uma 2ª versão do texto. Início de 2005, uma 3ª. Comecemos daí. Um ótimo começo. Os personagens tomam a cena em situações inéditas que aprofundam os encontros entre eles e as razões que os uniu naquele instante, a peça. A metalinguagem assume o discurso nas palavras de Elise, a pesquisa sobre uma interpretação não-teatral com o trabalho de um ¿estrangeiro¿ em cena é deixada pra outra ocasião e possibilita a criação de outras cenas: os encontros entre a Dona de casa e o Homem/cão e dela com o lixeiro. A condensação de movimentos, imagens e ações fortes no lugar do texto (uma imagem vale mais que mil palavras?), a busca de um corpo vivo, atento, presente. As situações cotidianas e diálogos simples que transformam as questões de cada personagem em mitologia (fale de sua aldeia e falará para o mundo?), o foco no ator-criador deixando o espaço livre (com escassos recursos cenográficos e a busca por uma iluminação e um trilha sonora apurada) são apenas algumas questões que, aos poucos, tornam nosso dialeto um código de criação. E isso não significa unanimidade, mas unidade que implica na convivência da diversidade.
Entramos em uma nova etapa: a conclusão de que um treinamento físico (voz e corpo) surge em função das necessidades do trabalho que se propõe; e a necessidade de apropriação pelo elenco dos novos temas tratados pela obra. Voltamos ao lugar de origem: o lugar do intérprete-autor que constrói uma encenação que seja coletiva e que contemple os dizeres de cada um. Agora sim, o jogo começa a ficar mais claro, os códigos definidos, sabemos pra que lado correr. Isso pode ainda pode não significar nada, mas é um recomeço. E afinal: pra quê mesmo servem as regras?
* Escrito por Paulo Azevedo no dia 8 de janeiro de 2005 (1º dia de ensaio de 2005 ¿ ano da colheita).
postado por: espanca! 10:25 PM