POR ELISE - diário de trabalho -

um diário de nosso trabalho.



| Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005


Fragmentos extraídos do livro do cineasta Eisenstein ¿O Sentido do Filme¿"

"Na verdade, para conseguir seu resultado, uma obra de arte dirige toda a sua sutileza de seus métodos para o processo";


"Uma obra de arte, entendida dinamicamente, é apenas este processo de organizar imagens no sentimento e na mente do espectador";


"Este é, na realidade, o objetivo final do esforço criativo de todo artista: concretizar a imagem concebida através dos elementos independentes, e reuni-los na percepção do espectador";


"A interpretação realista de um ator é construído não por sua representação da cópia dos resultados de sentimentos, mas por sua capacidade de fazer estes sentimentos surgirem, se desenvolverem, se transformarem em outros sentimentos ¿ viverem diante do espectador. Uma personagem, para produzir uma impressão verdadeiramente viva, deve ser construído diante do espectador durante o curso da ação";


"O efeito resultante, de crescente excitação, nunca deixa de conseguir a aprovação do espectador".


Algumas notas de Clarice Lispector em "A Hora da Estrela".


Para todos:


"Somos o que nos falta".


"Não se pode dar uma prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar".


Para Mulher: "...preciso dos outros para me manter de pé."


Paulo Azevedo





postado por: espanca! 3:27 PM



| Terça-feira, Fevereiro 22, 2005


"Nas noites de frio, os cachorros latem. Latem porque a noite dói no coração do mundo. Latem para esquentar o nariz. Latem porque quem late seus males espanta. Latem em grego, em cachorrês, em latim.Latem porque a lua, alguém tem que fazer alguma coisa com a lua, aquela coisa imensa, redonda, aquela coisa branca enorme donde vem todo o frio que faz a madeira das casas estalar, malassombradas. Então os cachorros latem mais.E, depois, latir, comer e coçar, é só começar. Você começa a latir por algum motivo. Depois, não precisa mais motivo. E você late, late,late, até ficar rouco. Há casos de cachorros que enlouqueceram de tanto latir. Latir tem começo, mas não tem fim. Há casos de cachorros ótimos que latiram tanto, tanto, mas tanto, até sair sangue da garganta, latiram a noite inteira até a última gota de sangue, latiram até morrer como cantam as cigarras. Nada como um cachorro latindo para acordar todos os cachorros da vizinhança, do bairro, da cidade, os latidos em ondas se espraiando de bairro para bairro, os últimos latidos indo morrer lá nos confins da aurora em Colombo, São José dos Pinhais ou Santa Felicidade. Latir é de graça, como o ar agudo que se respira nas noites de inverno, como a lua que se veste da nuvem que bem entende, como falar sozinho. Latir não dá lucro. Ninguém late pra anunciar, cachorro alto, moreno, bonito e sensual procura cadela idem para fazer uma noite de amor e uma ninhada de cachorrinhos. Ninguém late para fechar negócios, procura-se um osso com bastante carne, oferece-se uma lambida para quem fornecer uma pista. Late-se porque não há outro jeito..."

In " Vida de cão e outras vidas", no livro Gozo Fabuloso, de Paulo Leminski, editora DBA, S. Paulo, Brasil, 2004

postado por: espanca! 10:05 AM



| Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005


A EXATIDÃO

Já podemos vislumbrar o que é POR ELISE. O que era essência, agora já se proclama material.Um corpo. O esforço agora é no sentido de criarmos um organismo vivo, algo que funcione segundo suas próprias regras,como apontou Rita. Fiquei pensando que apesar de concordar e sinceramente gostar da sequencia final do espetáculo, a sensação que me envolve ao final de tudo, ainda é vaga.( por não participar da sequencia final, tenho assistido) Acho que Grace puxou o fio certo decidindo-se pelo discurso do recomeço.O discurso da fé.A fé feia. O que me pergunto é se este discurso não tem se chocado com o nosso antigo mote principal: A proteção. Afinal ´são dois grandes temas; não que um não possa conviver com outro... mas nos falta uma das propostas de Calvino, a Exatidão.

"...percebi claramente que minha busca da exatidão se bifurcava em duas direções.De um lado, a redução dos acontecimentos contingentes a esquemas abstratos que permitissem o cálculo e a demonstração de teoremas; do outro, o esforço das palavras para dar conta, com a maior precisão possível, do aspecto sensível das coisas..."

"Se meu livro le cittá invisibili continua sendo para mim aquele em que penso haver dito mais coisas, será talvez porque tenha conseguido concentrar em um único símbolo todas as minhas reflexões,experiências e conjecturas..."

postado por: espanca! 5:36 PM



| Domingo, Fevereiro 20, 2005




Bata assim no peito, depois uma mão na outra, assim, assim. Isso. Isso é bom pra acordar sua força particular.

postado por: espanca! 11:25 PM



| Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005


" O Teatro joga com os possíveis deslocamentos das posições dos desejos "

Tarkovski

postado por: espanca! 2:27 PM



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17/02/05

Oh!
Foi fazendo a última versão do texto e ensaiando as últimas cenas que entendi minha versão particular dessa peça:
O Lixeiro é a representação da FÉ. Portanto a ação da fé na peça, é a ação de correr.
A Mulher é a representação da EMOÇÃO. A ¿emoção¿ na peça tem a ação de cair.
O Cão é a representação da VERDADE. A ação da verdade é ¿latir¿. ¿Latir¿ é a reação mais fiel ao instante.
O Funcionário é a representação do MEDO. A ação do medo é portanto, esconder-se.
A Dona de Casa é a representação da RAZÃO. A ação da razão é falar.

Acho que temos que terminar a peça CORRENDO.

Grace


postado por: espanca! 2:26 PM



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28/01/05

ESPAÇO

Sobre o espaço ..................................... :
Nossa peça é permeada por situações que não ¿definem¿ lugar. Existem sim algumas referências (¿vizinho¿, ¿rua¿, ¿você mora por aqui?¿) mas referencias que não definem lugares. O próprio fato de praticamente não utilizarmos objetos atesta isso.
No entanto percebemos que nossa utilização do espaço tem sido construída pautada ainda numa concepção realista de espetáculo, o que não vem ao caso em Por Elise.
Exemplifico: A Dona de Casa sempre ocupa uma zona da cena, como se ali, naquele cantinho fosse a casa dela. Ou seja: ao optarmos em não definir o espaço estamos antes de tudo ampliando os significados dele; no entanto ao o utilizamos dessa forma que citei, estamos, de uma forma tímida, dando os mesmos significados que daríamos se definíssemos os lugares onde passam as situações.
Pensei então que, ao invés de construir a ¿casa¿, a ¿rua¿ que já conhecemos na vida cotidiana em cena, o mais importante seria, entender as relações que se tem com esses lugares no nosso cotidiano e encontrar as relações equivalentes dentro do lugar REAL em que se passa a peça. Ou seja: no TEATRO, que é o ¿mundo¿ na hora da encenação.
O que é ¿casa¿ no seu sentido mais amplo? É o lugar da intimidade, da proteção, o lugar onde se dorme.
O que é a ¿rua¿ no seu sentido mais amplo? É o lugar onde se relaciona, o lugar social, lugar do trabalho, da ordem?, a escola, o que não é materno
Então entendo que devemos encontrar a RELAÇÃO que temos com esses ¿lugares¿ na vida e encontrarmos relações equivalentes com o espaço da encenação.
Dessa forma, hoje, com o que já trabalhamos, a rua é o palco (incluindo a platéia); as coxias, a casa. Fora do teatro (a recepção, a rua onde se localiza o teatro, a padaria próxima) é o resto do mundo que não pisamos, mas sabemos que existe.

Começo, então a pensar na relação que cada personagem tem com o espaço:
O Funcionário é o que mais demonstra ter medo de se relacionar, por isso relaciona-se da forma mais previsível com o ¿palco¿. É o que anda corretamente para as marcas (claro sinal de previsibilidade), o que se relaciona como ¿mandaram¿. É realmente um funcionário. Por ele nem estaria ali, mas está porque a vida é uma ordem.
O Lixeiro é o que tem uma relação mais livre com o espaço, assim como realmente são os movimentos dos lixeiros. Como Gu me disse, é como se a cidade não tivesse margem para eles. Isso resume bem mesmo. Por isso o Lixeiro corre e some pelas coxias. Coxia para o lixeiro não é margem. Para Funcionário sim.
A Mulher está perdida: marcha pelos lugares à procura de algum. Onde existir algo que pareça poder lhe ajudar, ela vai: coxias, palco, banheiro..... não interessa.
A Dona de Casa tem experiência. Sabe de como é perigoso o chão da vida, lugar de pendengas perigosas. É provavelmente a única dos cinco que enxerga a árvore linda, enorme, que tem no centro do palco. Uma árvore de abacates enorme que podem cair na cabeça de qualquer um, a qualquer momento. Cuidado.
O Cão não sabe o que é rua, o que é casa. Ele apenas se relaciona com o instante. O sentido do cão é maior. É a falta de estética. É a verdade e verdade não tem ética. Cão não tem marcas. Ele pode até se assentar na platéia. É um cão.

Pois é,
Grace.


postado por: espanca! 2:25 PM



| Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005


E continuamos... primeira etapa: 2/3 da peça! Chegamos aos 40 minutos e algumas perguntas ainda insistem, perseguem. Particularmente, tenho várias. Meu personagem, o funcionário, busca continuidade. As pequenas descobertas em cada exercício proposto ou nas improvisações ainda surgem de maneira muito interna e tímida nas cenas: reações e intenções mais claras. O corpo começa a tomar forma. Mas qual? Qual meu Deus! Deus, cadê meu jardim? Ai! Vivo diversas formas e todas às vezes parecem muito próximas: como romper? Ou melhor, como avançar sem começar do zero todo dia? Sim, porque se for assim estamos num caminho sem fim. Como manter a força de determinados instantes? Como inserir o material na cena com frescor e verdade? E daí seguem "n" outras perguntas, que geram outras e quem sabe?


Com esse turbilhão suspenso, fico com as imagens e sons. Meus apontamentos sobre quem é o "funcionário" (ou que sei dele por enquanto):


Uma represa enorme, forte, que possui pequenas rachaduras e está prestes a ruir;


Um homem que se esconde atrás de um uniforme protetor;


Um homem que está cheio, muito cheio, acumulado de emoções que escondeu lá dentro e que estão prestes a vir à tona ¿ todas de uma só vez - , transbordar e gerar uma hiperatividade cardiovascular (gostei do termo ¿ o coração é um músculo e precisa se exercitar com sentimentos, caso contrário fica sedentário, flácido, sem prática de relação... qualquer coisinha e... pronto!);


Uma fortaleza que cai rente ao chão, um tora que desaba;


Um peixe dourado (como aqueles de propaganda... um clássico!) que acaba de ser retirado do aquário e se debate no chão sem ar;


Um homem com medo das pessoas e do que o envolvimento com elas pode gerar;


Os sons... Marco Antônio Guimarães e suas versões melódicas para o ouvido de "LavourArcaica", Arnaldo Antunes ("Socorro"), Antônio Pinto (e a Central do Brasil), o trem que sempre passa durante o ensaios na Casa do Conde como um vulto e a última descoberta (e a talvez a mais forte pra até agora): a bateria de um bloco que ensaia próximo ao Estúdio Dudude Herrmann (É, meninos, mais cedo ou mais tarde, vocês saberiam).


A bateria de uma escola de samba

Esse som esteve presente durante vários ensaios como estímulo inconsciente para o funcionário. Às vezes, eu parava próximo à janela, fechava os olhos e escutava. Quando estamos em processo de criação, tudo (e a qualquer hora) é material. Tudo mesmo. Saí após uma reunião de produção com Fernanda e Grace para jantar e lá estava a origem do som: um pequeno bloco de rua de carnaval do Santa Tereza. Até aí tudo bem. Mas era isso! Isso! As batidas do samba são as batidas do coração do funcionário e tudo o que se passa dentro dele ¿ desde o início do espetáculo ele está assim: latejando por dentro! Na relação com os outros, seu olhar no fundo diz: me ajuda, me dá um ralo, vou transbordar, por favor, faça qualquer coisa! Fora isso, que talvez pareça um pouco óbvio para alguns, o funcionário busca de um lugar ideal (dentro ou fora de si). Ele quer buscar o seu "japão". Oriente talvez seja um ícone disso para nós, ocidentais. Um lugar onde se assenta, se escuta em paz e se faz uma coisa de cada vez, sem pressa, em harmonia. Mas qual é o "japão" brasileiro? O lugar do expurgo, da catarse coletiva, etc, etc, etc... brasileiro? O samba pode ser um deles. Na prática da cena, vamos trabalhar na oposição entre a leveza e o equilíbrio dos movimentos orientais (tai chi) ¿ a busca da calma aparente - e o que se passa por dentro do personagem (as batidas fortes, o samba, a enxurrada!). Mesmo na teoria, esse estímulo já interferiu em muitas coisas relacionadas aos personagem e a sua presença na dramaturgia. Clareou...

Temas pra outra hora:


espaço como base


O X é o lugar seguro para o funcionário.




Paulo Azevedo ¿ 3.02.2005

postado por: espanca! 1:16 PM




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