POR ELISE - diário de trabalho -

um diário de nosso trabalho.



| Sexta-feira, Abril 29, 2005




.é só clicar

Por Elise em Sampa


postado por: espanca! 10:37 AM



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O outro ataque

Ficamos um tempo longe daqui. Necessário. Mas era só daqui, dessa página, pra que pudéssemos ler o que já foi escrito, por nós e pelos outros que leram as nossas linhas. Mesmo que tenham sido poucas, foram fundamentais pra sabermos onde estamos pisando. Aliás, de que material é feita essa terra, esse lugar onde lançamos algumas coisas e deram pé.
Recomeçamos aos poucos e voltamos ao nosso passo. Da pré-estréia pra cá, nossa... mudamos um bocado. Nós, entre nós, nosso redor, nosso trabalho. Este sim, vai nos acompanhando e adaptando o olhar pra essa nova história. Exemplo: da carne (quanta olheira, meu Deus!) da 1ª sessão aberta ao público (era só um ensaio... ôh, meu Deus!) ouvimos muito, de muita gente e tomamos o ar pra soltar tudo em cinco sessões fora de casa com mudanças de passagens (mais ágeis, menos black out), redução de cenas, textos, maior entendimento de personagens e ritmo, mais ritmo. ¿O público que pense lá fora (!!!), aqui não!¿. Sinta. Só. Sem pré-conceito: veja, troque, só. Envolva com tudo.
Depois da folga (de palco porque de computador, telefone, gráficas rápidas e correios estamos fartos!), voltamos aos encontros de nossos personagens, com suas vozes que refletem seus estados que são fruto das situações que eles vivem. Ciclicamente. Ar, estamos respirando. Muito. Do zero. Com balões, línguas de sogra, costelas abertas e tudo que temos direito. Soltar e não tencionar pra abrir novas possibilidades (essa ouvi hoje e vai valer pra sempre!). Entender cada parte, criar o estado a partir do que é verdade, necessidade do corpo, que solta um ar (olha ele aí de novo) que gera um corpo. Reação em cadeia.
Agora podemos começar. Sim, um outro ataque. Novo, mas com tudo que os outros tinham. Falta de ar, tonteira, queda, ira. Mais... é um súbito, um ataque que começa no corpo e passa pra alma. O ataque é da alma! O ar bomba pra outro lugar, para um estado, outro lugar que não caiba no corpo. Descoordenação. Não cabe em membros. Expurgo não tem reflexão, tem impulso. É lirismo! Duro. Súbito, não criado, crescente. É pá pum!
É isso. Estamos assim. Rever, revisitar um caminho antes desconhecido. Olhar e ter alguma coisa pra dizer sobre o que se fez, o que ainda não tem marcas firmes, acertar o passo. Mais fundo, mais forte. Até parar de novo e ver. Rever. E começar a mudança. Uma nova. E... ¿Talvez você não entenda o que escrevo agora, mas você vai entender... eu juro¿.


Paulo Azevedo

postado por: espanca! 10:28 AM



| Domingo, Abril 24, 2005


BILHETE PARA O ILUMINADOR

Ei Pava.

Estava pensando numa coisa.. olha para ver se é bom:
Fiquei pensando na possibilidade da luz apontar um pouco a parte do dia que
as coisas acontecem. No texto isso não é claro. Nele, não se sabe claramente
(eu quando o escrevi não pensei nisso) se é tarde, dia, noite... apesar de
ter algumas poucas referências disso. Mas como a estrutura da peça é
circular (o fim é na verdade o recomeço, já que o Lixeiro e a Mulher voltam
a correr, como no início), fiquei pensando no ciclo da natureza: o nascer do
sol, quando ele vai caindo com a tarde, quando ele se põe e quando é noite,
depois novamente o dia, e assim sucessivamente. Não sei... achei
interessante isso de colocar o ¿sol¿ da peça mais em evidência, quase como
um personagem. Já tem a história de que normalmente os praticantes de tai
chi o fazem de frente pro sol. Fiquei viajando também se aquela luz no
início, que vai mostrando aos poucos, o rosto dos 4 atores lá atrás,
enquanto eu falo, não pode ser isso: o sol, aos poucos nascendo. E por aí
vai... As vezes isso pode ser uma informação pra tua criação. Pensei nisso
porque a ¿natureza¿ na peça é algo muito presente (os animais, o
abacateiro). Ela na peça é a ordem maior, que não se controla, e o sol é um
representante de luz muito significativo, não é..
Bom, vamos conversando...

Abraços,

Grace.


postado por: espanca! 1:54 PM



| Quinta-feira, Abril 14, 2005


Tentação

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas,
ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava.

Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente da sua dona, arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.

A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.

Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.


Clarice Lispector in "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998

postado por: espanca! 5:55 PM



| Domingo, Abril 10, 2005


. filipeta



* arte: Viviane Gandra

postado por: espanca! 2:06 PM




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